AO ABRAHAM, MEU FILHO ou, Como Reconstruir o Mundo

do Ms. J. Pietro B. Nardella Dellova, darsham

... quero te criar no vento que passa,
e como pássaro que voa nas alturas,
e como uma flor simplesmente,
e sem poder, e zelo, e sem ameaça ...
(Ao Molequinho, in AMO, 1989)

Ecco, figlio: das sementes que nós plantamos, recebi flores, árvores e frutos! Porém, a maior alegria é tê-las plantado: a vida fica por conta da simplicidade e vale mais, bem mais, que a existência. A vida é poesia e música: caminho, encontro, planícies, ar. A existência, poema e barulho: estrada, distância, labirinto, gases. O amor é mesmo semear sementes boas! A sabedoria é nunca chamá-las semente! E o coração é o universo onde a vida pode ser privilegiada com seres queridos: onde não haja gritos, mortes, violação; somente música, e serenidade, e lealdade, e afeto, e delicadeza: a pedra atirada contra um ser é atirada contra todos e contra D’us!

Se eu falhar, filho, não importa. Faça do seu coração o lugar com terra boa, e deixe flores nele, de todas as que encontrar, com variados perfumes e cores. Mas, não morra entre elas: faça caminhos delineados, com pedras que durem e muitas placas: aqui nada se mata. Caminhos largos para pessoas, porque, afinal, um jardim não é sem pessoas. E não se aborreça se elas criarem passagens entre flores: de terra socada apenas, para irem e virem, e estarem: porque essa é a missão de ser humano. Não queira mais que isso! As borboletas e anjos ficam por conta do Eterno.

Transforme a vida numa casa, mas não use material descartável. Ela deve durar, trazer saudades, deixar lembranças, lançar raízes profundas e dar frutos. Abra janelas em todas as direções e erga um teto alto, dos que acompanham o telhado, a fim de que tenha bastante ar e a música possa espalhar-se como unção e bênção divinas. Na casa, filho, poucas coisas, mais pessoas; nenhum negócio, muitos encontros. Entre coisas, prefira as simples, rústicas e duradouras; entre pessoas, prefira as humanas: e entre elas, as mulheres, especialmente as que cheiram poesia e possam ser chamadas de “bênção de Ad-nai”, pois os seus sentidos são desenvolvidos mais que em pessoas comuns: o seu cheiro é mais agradável ! E não se esqueça: o café é vital, feito –nunca por empregadas- em coadores de pano, e servido –nunca para apressados- em xícaras, pequenas xícaras brancas, de ferro esmaltadas. Tudo deve ser demoradamente vivido, visto, cheirado, degustado, escutado, falado e compreendido –nunca amanhã.

A sua casa deve ser o encontro de pessoas, coração e música, muita música! E poesia, muita poesia!

Deixe para fora aquele que coisifica e faz do mundo um manicômio, da floresta um deserto, do rio uma privada química, do humano um escravo, de Yeshua um ídolo, dos lugares sagrados um mercado. Deixe para fora o que pisa em formiga, o que pesca por esporte, o que mantém cachorro na corrente e não lhe tira os carrapatos, o que atira contra aves, sobretudo, o que mata pequenos passarinhos ou os exibe em gaiolas –com este nem cumprimentos! E o que amaldiçoa crianças (ainda que no ventre) e o que despreza idosos (inclusive aos asilos) e se diz de geração espontânea. Deixe para fora o que ama hambúrgueres e o necrófago –que fotografa e filma demais- e o que se senta à mesa como que diante de um cocho, o que ama futricagem e lashom hará, o que ama celular, o que ama noites de Internet, o que ama carros, e ama dinheiro, o necrófilo, o que ama fita pornô, principalmente, pedófilos, ainda que virtuais. Aliás, deixe para fora o que ama qualquer coisa e, por ela, a coisa, despreza o humano e o Eterno, sobretudo, o íncubo opressor, preconceituoso, prepotente, corporativista, agiota, banqueiro, latifundiário, traficante, legalista, pedófilo, sádico, mercenário, imperialista, nazista, fascista, anti-semita, terrorista, torturador, carrasco (e qualquer outro vampiro e parasita) e, ainda, o súcubo covarde, invejoso, voyeur, masoquista, fanático, racista –negro ou branco-monarquista, republicano caffellatte, getulista, militarista, antiético, traidor, que abraça e ri sem razão e não olha nos olhos, mentiroso, carlista, malufista (e qualquer outro hospedeiro e escória).

E, deixe para fora, também, aquele que, com ou sem anel –angustiado- espia e ama falar –bem ou mal- da vida alheia: seja em casamento, reunião de pais e mestres, formatura, churrasco –eleitoral, beneficente e orgiástico- aniversário, dia das mães, dia dos pais, natal, ano novo ou velório; seja no cabeleireiro e Câmara; sinagoga, mesquita, templo e terreiro; spa, clínica e academia; condomínio e favela; avião, ônibus, elevador, escada, portão, porta e janela; corredor e sala de espera; mercado e escola; boteco, clube, novela, tv, jornal, revista, internet, loja e ordem secreta (e qualquer outro maledicente em qualquer outra viela escura e sufocante da sociedade).

E deixe, também, o que ama flores (e outras coisas indizíveis) de plástico, diplomas pendurados, relação solitária, artificial, virtual e via telefone, e o que suga o tempo alheio, isto é, a vida, e o que não paga pensão alimentícia, e o que transforma uma mulher bonita em bibelô e trofeuzinho ou escrava e zumbi; e o que fala de mulher como de uma coisa ou ser inferior – ah, filho, este é o pior! É tão imbecil e inútil que não acredita em amor de pupilas, lábios, pão e umbigo; poesia, música, suor, intimidade e comunhão! E não sabe nem acredita, filho, que haja múltiplos sentidos femininos: para ele –que tranca a adega- o vinho é para negócios, ostentação e frescura, e não para ungir o umbigo e a boca da mulher. Este jamais leu cada uma das linhas do Cântico dos Cânticos nem sabe coisa alguma da Creação!

Hai capito? Então, abra a sua casa para poetas, músicos e mulheres-poesia. Homens, só os de caráter na Torá: a luz virá com eles! Porém, não seja impiedoso, tenha misericórdia daquele que desconhece o céu, a terra, o mar, o inferno e o paraíso; nunca perdeu o sono, nem contou estrelas, nem parou diante da lua, nem se deixou à brisa e nunca viu anjos e demônios nem olhou o vazio, nem riu à-toa, nem chorou à-toa, nem xingou à-toa; nunca viu uma casinha no campo vazia e abandonada, nem pôs as mãos à boca diante de uma cama e de um espelho antigos, nunca possuiu asas de arcanjo ou de inseto para voar sobre oceanos nem quis escalar montanha alguma e desconhece o material de que Yerushalaim é formada. Misericórdia, filho: ele é insípido porque não amou nem foi amado, ainda!

Va bene, figlio mio, va bene. Não é tudo! Por agora descanse, cubra-se com seu Talit e seu Kipá e ponha sobre a sua mesa o pão feito em casa e o divida com as mãos, as mesmas que tocam a Mezuzá –nunca com faca. O pão puro sem as injustiças: sem a liberdade de outrem, nem a fome, a cárie ou a privação de outrem, nem a nudez ou a dignidade de outrem, nem a opressão sobre outrem, nem a tristeza ou dor de outrem, nem o corpo, a alma e o espírito de outrem, nem o sangue ou a vida de outrem: a sua mesa deve ser simples, o seu pão, suado, e as suas mãos devem ser justas, filho!

Carta encaminhada ao meu filho Abraham Alessandro Dellova, quando resolveu estabelecer residência em New York.
São Paulo, Brasil, Aprile 2002 – Pessach di 5762 © copyright

© Prof. Ms. J. Pietro B. Nardella Dellova, 42, Coordenador dos Cursos de Direito da Faculdade de Jaguariúna e da Faculdade Policamp. Mestre em Direito pela USP (A Crise Sacrificial do Direito: um estudo de René Girard, Martin Buber e Yeshua). Mestre em Ciências da Religião pela PUC/SP (A Palavra Como Construção do Sagrado: um estudo da Poesia em Heiddeger e Osman Lins). Pós-graduado em Direito Civil (Os Direitos da Personalidade). Pós-graduado em Literatura Brasileira (A Palavra Multifacetada: do grau zero e outros graus da palavra). Formado em Filosofia e em Direito. Poeta e membro da União Brasileira de Escritores-UBE. Autor dos livros: AMO, NO PEITO e ADSUM. Ex-membro da Comissão de Bioética e Biodireito da OAB/SP. Predicatore (darsham) e Mestre (Rav) na Sinagoga Sêh HaElohim (originada da Sinagoga Scuola (Beit HaMidrash), Lazio, Itália). Membro ativo da Ordem dos Advogados do Brasil e da Associação dos Advogados de São Paulo. Consultor e Palestrista. Professor de Direito Civil, Ética e Filosofia do Direito em São Paulo.

veja outros textos em
http://www.faj.br/artigos.php e em http://www.policamp.edu.br/artigos.html

e-mails:
prof.nardella.dellova@virgilio.it
sinagogasehhaelohim@virgilio.it

© 2002-2011 Todos os Direitos estão reservados ao Cafetorah.com e a Empresa Minarts de Israel ( Israel Design Company ).